Lula e Trump tentarão fechar acordo sobre tarifas em 30 dias

Após reunião de três horas com Trump, presidente diz que Brasil e EUA criarão grupos de trabalho para negociar tarifas, combater o crime organizado e ampliar investimentos em minerais críticos

Em coletiva após reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (7) que Brasil e EUA decidiram criar um grupo de trabalho para avançar em acordos comerciais. Eles também discutiram sobre cooperação contra o crime organizado e investimentos em minerais críticos. Segundo Lula, a meta é concluir, em até 30 dias, uma proposta sobre as tarifas aplicadas aos produtos brasileiros.

O encontro, que reuniu ministros dos dois países, durou cerca de três horas — mais de uma hora acima do previsto — e, segundo integrantes do governo brasileiro, ocorreu em “clima amistoso”. Lula afirmou que os dois governos também vão estabelecer “planos de metas” para acelerar a execução dos acordos firmados.

Tarifas e comércio

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a reunião foi “muito positiva” e que os temas avançam “a cada encontro”. Segundo ele, o governo brasileiro voltou a defender o encerramento da chamada “Seção 301”, investigação comercial conduzida pelos EUA, e reiterou que não há justificativa para a manutenção de tarifas contra produtos brasileiros.

“Estabeleceu-se uma discussão em torno das tarifas, do não cabimento das tarifas em relação aos produtos brasileiros”, disse Vieira. Segundo o ministro, os dois governos concordaram em voltar a se reunir em 30 dias para tentar concluir um entendimento sobre o tema e estabelecer “novas regras para o futuro”.

O ministro afirmou ainda que Brasil e Estados Unidos pretendem retomar uma relação comercial “dinâmica e crescente”, após queda nas importações e exportações entre os países no último ano.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Rosa, destacou que foram discutidos investimentos bilaterais e formas de ampliar o comércio entre os países.

Combate ao crime organizado

Já o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, classificou o encontro como “extraordinário” e afirmou que Trump ouviu as propostas brasileiras sobre combate ao crime organizado. Segundo ele, Lula propôs a criação de grupos de trabalho permanentes sobre segurança pública e cooperação policial.

Na área econômica, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o Brasil apresentou aos americanos indicadores de crescimento e estabilidade econômica. Segundo ele, o governo brasileiro também destacou o déficit comercial existente entre os dois países.

Durigan afirmou que a cooperação contra o crime organizado terá duas frentes principais: o fortalecimento da fiscalização aduaneira e o combate à lavagem de dinheiro. Segundo ele, Brasil e EUA já operam um mecanismo de troca prévia de informações sobre contêineres, o que permitiu apreensões de armas e equipamentos ilegais entre maio de 2025 e abril de 2026.

Segundo o ministro, mais de meia tonelada de armas irregulares vindas dos Estados Unidos foram apreendidas no Brasil no período, além de mais de uma tonelada de drogas sintéticas identificadas em operações conjuntas.

O ministro também afirmou que o governo brasileiro quer ampliar a cooperação para operações conjuntas contra organizações criminosas e rastreamento de recursos enviados ilegalmente ao exterior. Ele citou casos de lavagem de dinheiro e evasão fiscal envolvendo movimentações em estados americanos.

Minerais críticos e terras raras

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a conversa também tratou da exploração de minerais críticos e terras raras. Segundo ele, Lula informou aos americanos que o Brasil aprovou um novo marco regulatório para atrair investimentos internacionais ao setor.

Silveira disse que o governo defende que a cadeia produtiva — da separação ao refino dos minerais — seja instalada no Brasil. “É mais barato investir e refinar os materiais no Brasil, gerando renda, emprego e divisas para o país”, afirmou.

O ministro também afirmou que Lula tratou os minerais críticos como tema de “soberania nacional” e defendeu investimentos estrangeiros no setor sem preferência geopolítica.

Multilateralismo

Ao comentar o encontro, Luiz Inácio Lula da Silva disse que a reunião representou “um passo importante na consolidação da relação democrática histórica” entre Brasil e Estados Unidos.

“Somos duas democracias muito importantes, uma na América Latina e outra na América do Norte”, afirmou. Lula também disse querer ampliar o interesse americano por investimentos no Brasil e comentou a ausência de empresas dos EUA em licitações internacionais realizadas pelo governo brasileiro.

O presidente comentou que os Estados Unidos perderam espaço comercial no Brasil após a ascensão e o interesse da China por acordos comerciais com o Brasil a partir de 2008. Segundo ele, o governo brasileiro busca ampliar acordos internacionais e fortalecer o multilateralismo.

O presidente afirmou ainda que o combate ao crime organizado exige cooperação regional e defendeu estratégias para além da repressão militar. Segundo ele, o Brasil defendeu a criação de um grupo de trabalho envolvendo países da América do Sul e da América Latina para enfrentar facções criminosas.

“Não é a hegemonia de um país ou de outro. Tem que ser compartilhado”, declarou. Lula também afirmou que entregou pessoalmente a Trump propostas escritas em inglês sobre o tema.

Questionado sobre a possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, Lula afirmou que o tema não foi discutido durante a reunião com Trump.

O presidente citou ainda o tráfico internacional de armas e a lavagem de dinheiro. “Parte das armas que chegam ao Brasil sai dos Estados Unidos”, disse.

Sobre os minerais críticos, Lula afirmou que o Brasil tratará o tema como questão de soberania nacional, mas que o país está disposto a compartilhar oportunidades com investidores estrangeiros interessados em produzir no território brasileiro.

Democracia e soberania

Lula também declarou que o Brasil está “preparado para discutir com qualquer país sobre qualquer assunto”, mas afirmou que há temas inegociáveis. “Uma coisa que não abrimos mão é da nossa democracia e da nossa soberania”, disse.

Questionado sobre eleições, o presidente afirmou que não considera adequada a interferência de líderes estrangeiros nos processos políticos de outros países. Apesar disso, afirmou acreditar que Trump “gosta do Brasil” e defendeu uma relação “sincera” entre os governos.

“Quem vai defender a eleição brasileira é o povo brasileiro”, declarou.

Ao comentar a investigação comercial envolvendo o Pix, Lula afirmou que levou o secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, à reunião porque imaginava que Trump trataria do tema. “Ele não tocou no assunto do Pix, então também não toquei. Porque eu espero que um dia ele ainda vá fazer um Pix”, ironizou o presidente. Segundo Lula, “muitas empresas americanas já fazem”.

Política internacional

Questionado sobre temas internacionais, Lula afirmou que está disposto a discutir com Trump assuntos como Cuba, Venezuela e Irã e voltou a defender “mais diálogo do que guerra” nas relações internacionais. O presidente também reiterou a defesa de uma reforma no Conselho de Segurança da ONU.

Lula também afirmou que entregou a Trump o acordo nuclear firmado entre Brasil, Turquia e Irã em 2010, durante seu segundo mandato. Segundo o presidente, o documento demonstrava que é possível buscar soluções diplomáticas para conflitos internacionais por meio do diálogo e da negociação.

Matéria: Lula e Trump tentarão fechar acordo sobre tarifas em 30 dias – ICL Notícias

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