Comentarista da Globo Demétrio Magnoli crítico ferrenho do PT reconhece erro ao apoiar Impeachment de Dilma

Demétrio Magnoli, o PT e a autocrítica tardia

No momento em que o Partido dos Trabalhadores completa 46 anos de história, resistência e enfrentamento permanente aos interesses das elites econômicas brasileiras, a autocrítica feita pelo sociólogo e comentarista Demétrio Magnoli merece ser analisada com atenção — e também com rigor.

Magnoli sempre deixou claro o seu lado. Ao longo dos últimos anos, sua atuação no jornalismo opinativo foi marcada por uma postura sistematicamente agressiva ao PT e ao presidente Lula, ao mesmo tempo em que relativizava, suavizava ou “passava pano” para partidos e projetos políticos de direita. Essa assimetria comprometeu a credibilidade de sua análise e contribuiu para turvar o debate público, especialmente em um período decisivo para a democracia brasileira.

Em 2016, ao defender o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Magnoli não foi apenas um observador crítico. Foi parte ativa de um coro de jornalistas, comentaristas e intelectuais que ajudaram a legitimar um processo político que, embora revestido de formalidade jurídica, produziu efeitos profundamente antidemocráticos. Sua guinada, registrada na coluna “Impeachment, urgente!”, representou um erro de avaliação política que ele próprio hoje reconhece.

A autocrítica publicada originalmente na Folha de S.Paulo em 2022 — e resgatada agora, em 2026, na seção comemorativa dos 105 anos do jornal — tem valor simbólico. Magnoli admite que superestimou riscos institucionais, subestimou a capacidade das instituições democráticas e apoiou uma solução extrema para um problema político que poderia — e deveria — ter sido resolvido nas urnas.

O reconhecimento de que o impeachment gerou “consequências funestas”, fortaleceu setores autoritários do sistema de justiça, abriu caminho para a prisão ilegal de Lula e criou as condições políticas para a ascensão de Jair Bolsonaro é um ponto importante. Trata-se de uma confissão tardia, mas relevante.

No entanto, é preciso dizer com clareza: a mea culpa não apaga o passado. Não neutraliza o papel que parte da grande imprensa e de seus comentaristas desempenhou ao longo de anos no ataque sistemático às políticas sociais, aos governos de esquerda e, em especial, ao PT. Esses setores atuaram — e ainda atuam — como defensores dos interesses das grandes famílias bilionárias do país, sempre hostis a qualquer projeto de redução das desigualdades.

O gesto de Magnoli pode ser considerado nobre do ponto de vista individual, mas não o isenta da responsabilidade histórica por ter contribuído para um dos períodos mais sombrios da democracia brasileira. O atraso político, social e institucional imposto ao país após 2016 não foi um acidente — foi resultado de escolhas, discursos e posicionamentos.

Para o PT, que há décadas enfrenta ataques, criminalização e tentativas de apagamento de sua trajetória, essa autocrítica reafirma algo que o partido sempre denunciou: o impeachment de Dilma Rousseff foi um erro político grave, ainda que tenha ocorrido sob o verniz da legalidade. Um erro que custou caro ao Brasil.

Aos 46 anos, o PT segue vivo, reconstruindo o país, defendendo a democracia e reafirmando que não há jornalismo neutro quando se escolhe um lado. Demétrio Magnoli escolheu o seu — e agora reconhece, ainda que tardiamente, o preço dessa escolha.

Segue texto completo a baixo

Demétrio Magnoli reconhece que errou ao apoiar golpe contra Dilma

Sociólogo revisita posição de 2016, reconhece falha de avaliação política e aponta efeitos negativos do afastamento da ex-presidente

Dilma Rousseff e Demétrio Magnoli
Dilma Rousseff e Demétrio Magnoli (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil | Reprodução/GloboNews)

O sociólogo Demétrio Magnoli reconheceu que errou ao apoiar o golpe contra a presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. Em um texto retrospectivo, ele revisita os argumentos que o levaram a mudar de posição naquele período e faz um balanço crítico das consequências políticas do processo. A autocrítica foi publicada originalmente pela Folha de S.Paulo, em um artigo de 2022 resgatado na seção especial “105 Colunas de Grande Repercussão”, criada para marcar os 105 anos do jornal, comemorados em fevereiro de 2026.https://landing.mailerlite.com/webforms/landing/r9f0h9

Magnoli recorda que, em março de 2016, rompeu com a posição que mantinha desde o início de 2015, quando se declarava contrário ao golpe Na ocasião, escreveu a coluna intitulada “Impeachment, urgente!”. Ao revisitar o episódio, foi direto: “Era uma mudança da opinião contrária ao impedimento de Dilma Rousseff que expressei desde o início de 2015 — e, claramente, um erro de avaliação política”.

Segundo o sociólogo, a guinada ocorreu em meio às reações do Palácio do Planalto e da direção do PT diante do avanço das investigações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Passei a encarar o impeachment como necessidade ‘urgente’ pelas reações de Rousseff e da direção petista ao processo judicial contra Lula”, escreveu.

No texto, Magnoli cita declarações do então dirigente petista Gilberto Carvalho e ações da militância do partido como fatores que reforçaram sua percepção de risco institucional. Ele também menciona a manobra para levar Lula ao ministério como uma tentativa de afastá-lo da jurisdição do então juiz Sergio Moro, descrevendo o Planalto como um espaço mobilizado para proteger o ex-presidente do sistema judicial.

Apesar disso, ao analisar o cenário com o distanciamento do tempo, o sociólogo afirma que superestimou as ameaças à democracia. “O STF tinha a prerrogativa de afastar o foro privilegiado de um Lula alçado ao ministério — e certamente a utilizaria”, escreveu. Para ele, o país teria condições de atravessar o restante do mandato presidencial até a eleição seguinte: “O país podia suportar mais dois anos de desgoverno, até o veredicto das urnas”.

Magnoli também reafirma que as chamadas “pedaladas fiscais” violaram a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas sustenta que o desvio não justificava uma medida extrema como o impeachment. Ele lembra que já havia argumentado, em 2015, que o problema central estava na política econômica, responsável por uma recessão profunda entre 2014 e 2016.

Ao avaliar os efeitos do afastamento de Dilma Rousseff, o sociólogo é contundente. “O impeachment trouxe consequências funestas”, afirma. Em sua análise, o processo fortaleceu setores da Lava Jato, que teriam atuado com um projeto de poder próprio, abrindo caminho para a prisão de Lula e, posteriormente, para a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência.

Na outra ponta, segundo Magnoli, o golpe interrompeu um processo de aprendizado político no país e forneceu ao lulismo uma narrativa que ajudou a obscurecer falhas de suas políticas econômicas. Mesmo rejeitando a tese de que o impeachment tenha sido um golpe, ele sustenta que o afastamento, embora legal e supervisionado pelo Supremo Tribunal Federal, representou um erro político de grandes proporções.

Ao final do texto, o sociólogo resume sua revisão histórica em tom pessoal e direto: “Legítimo e legal, o impedimento de Rousseff foi um erro político grave. Entendi isso no começo. Depois, fui tragado pelo turbilhão. Mea culpa.”

Matéria: 247 – Demétrio Magnoli reconhece que errou ao apoiar golpe contra Dilma | Brasil 247

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