Dono do Metrópoles – Colaboradores da CBF são investigados por desvios relacionados a Luiz Estevão, ligado a Al Capone
As investigações envolvem transações de compra e aluguel de propriedades na capital entre 2011 e 2021, totalizando bilhões, realizadas através de empresas fictícias.

Uma investigação revelou que empresas de fachada associadas ao ex-senador movimentaram R$ 1,5 bilhão em seis anos; a defesa argumenta que as acusações são infundadas e que o caso será arquivado.
Dentre os gestores de clubes de futebol de Brasília, alguns foram identificados em uma investigação do Ministério Público do Distrito Federal (MPDF) como colaboradores de Luiz Estevão, 76, em um suposto esquema de fraudes e lavagem de dinheiro.
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As investigações envolvem transações de compra e aluguel de propriedades na capital entre 2011 e 2021, totalizando bilhões, realizadas através de empresas fictícias.
O caso, nomeado Operação Al Capone por investigadores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), refere-se ao famoso chefe da máfia italo-americana. Processos jurídicos foram instaurados em 2022 e 2023 na Justiça do DF.
Um dos processos, que alega danos ao erário e solicita ressarcimentos, ainda está em andamento. O processo criminal foi fechado, sem julgamento, em maio do ano passado. A defesa dos envolvidos, representada pela mesma equipe jurídica, considera as alegações de organização criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro “infundadas”, o que levou o Superior Tribunal de Justiça (STJ) a rejeitá-las. A defesa também alega que o processo civil deve ser encerrado por falta de fundamentos (veja mais detalhes abaixo).
Segundo o MPDF, Luiz Estevão lidera um grupo econômico que teria enriquecido de forma ilícita às custas do erário distrital, utilizando uma “engenharia delitiva” através de empresas de fachada para dificultar o rastreamento de recursos e ocultar a identidade dos verdadeiros beneficiários.
Cassado em 2000, ele é proprietário do Grupo Ok e do portal de notícias Metrópoles, um dos mais importantes do Brasil, além de organizar grandes eventos culturais e esportivos no Estádio Mané Garrincha.
A investigação do MPDF concentra-se no funcionamento do Grupo Ok, que atua no mercado imobiliário.
“As empresas ligadas ao ‘Grupo Ok’ e seus gestores vêm praticando, há pelo menos uma década, atos fraudulentos contra a administração pública, resultando em grandes desvios de verbas públicas em benefício de representantes dessas empresas”, destaca a ação civil pública.
As empresas do grupo receberam R$ 2,5 bilhões e movimentaram R$ 1,5 bilhão entre 2013 e 2019.
A investigação aponta R$ 336 milhões em impostos e taxas não pagos deliberadamente ao Governo do DF e uma rede de CNPJs envolvidos em uma “ciranda bancária”. As acusações abrangem 19 empresas e oito indivíduos, incluindo o ex-senador e membros de sua família.
Mesmo que a investigação não esteja diretamente relacionada ao futebol, os indícios reforçam que o ex-senador controla cinco clubes de Brasília, que competem entre si e negociam jogadores. Isso fere as diretrizes de fair play financeiro da CBF, que vende a Luiz Estevão a oportunidade de organizar grandes partidas, como a Supercopa Rei, vencida pelo Corinthians no Mané Garrincha em 1º de maio, em Brasília.
O grupo se tornou réu na ação penal da Al Capone, mas obteve uma decisão favorável da Quinta Turma do STJ, em maio de 2025, que suspendeu novamente a tramitação do processo criminal. Com essa vitória, a ação penal foi encerrada sem que as acusações do MPDF fossem julgadas. O tribunal considerou que os atos não atendiam aos critérios necessários para serem qualificados como crimes.
Entretanto, um outro processo ativo, com as mesmas alegações, continua em trâmite na Justiça cível do DF, tratando de responsabilidades administrativas. Esta ação, com mais de 8 mil páginas, requer o pagamento de R$ 128,8 milhões em multas e indenizações, além da dissolução compulsória das empresas consideradas de fachada e a proibição de receber subsídios e empréstimos públicos.
Entre as oito pessoas investigadas, duas figuras chave na rede de clubes mantida por Luiz Estevão estão mencionadas: Maria Vânia Pinheiro de Brito e José Eduardo Bariotto Ramos.
Vânia Brito trabalha para o conglomerado do ex-senador, é vista em fotos com ele em confraternizações e é oficialmente a proprietária do clube Samambaia. Ao ser contatada, ela se recusou a comentar sobre o clube.
Eduardo Ramos é dirigente do Brasiliense, mas, em documentos da Federação de Futebol do DF (FFDF), representa também o Samambaia, Ceilandense, Aruc e Cruzeiro-DF. Quando abordado, ele apenas negou a veracidade da informação, sem se aprofundar.
Uma das filhas de Luiz Estevão, que enfrenta processos, indicou a advogada Viviane Carvalho de Araújo como testemunha de defesa. Ela representa o Grupo Ok e é a proprietária do Ceilandense, outro time sob controle do ex-senador.
A investigação do MP indica que Vânia e Eduardo foram sócios de ao menos quatro empresas do grupo e gerenciaram contas que envolveram dinheiro ilícito: ABC, LCC, Opus e Magnum, onde atuaram como gestores para “ocultar o controle” de Luiz Estevão e dispersar valores. Ambos são considerados “pessoas de confiança e operadores” do líder.
“Esse arranjo empresarial, sob a orientação de Luiz Estevão, alinhava-se a uma gestão abusiva das entidades jurídicas sob seu domínio, caracterizando um nocivo uso fraudulento de obrigações contratuais visando vantagens indevidas e resultando em condutas ilegais”, enfatiza o Gaeco.
As infrações atribuídas ao grupo de Luiz Estevão estão divididas na Operação Al Capone em três categorias:
Fraude na compra de imóvel da Terracap
A denúncia alega que Luiz Estevão cometeu uma fraude ao explorar, por anos, um imóvel da Terracap (Agência de Desenvolvimento do DF) sem realizar os pagamentos necessários. Após adquirir o imóvel em 1995, ele se tornou inadimplente e, ao ser cobrado na Justiça, utilizou outra empresa para adquirir o bem novamente anos depois.
Quando a Justiça determinou a rescisão do primeiro contrato em 1998, o Grupo Ok defendeu a posse alegando que havia feito melhorias que requeriam indenização. O caso se resolveu apenas em 2013, quando o shopping Península foi colocado à venda.
A segunda venda só ocorreu após o Grupo Ok abrir mão de créditos por essas melhorias, em 2015. A empresa ABC Construções, em nome de Eduardo Bariotto e Vânia Brito, arrematou o imóvel. Para o MPDF, ambos atuavam como operadores de Luiz Estevão.
A empresa tinha um capital social de R$ 20 mil e estava inativa na Receita Federal. O imóvel estava avaliado em R$ 66,4 milhões em 2015. Assim como na primeira compra, as parcelas não foram pagas.
“Enquanto um empresário honesto participa de uma licitação pública com a expectativa de uma competição justa, outros vencem por meio de trapaças e acordos nos bastidores, sem honrar suas dívidas, levando à desvantagem da sociedade do DF”, ressalta a ação.
O esquema de IPTU
A investigação identifica um desvio intencional, através de contratos de aluguel, de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) que deveria ser pago ao governo do DF.
O grupo estipulava que inquilinos, incluindo grandes redes de varejo, repassassem os valores dos impostos diretamente para imobiliárias do conglomerado.
Entretanto, os boletos eram gerados para empresas não ligadas ao contrato de aluguel. Essas empresas recebiam os valores e “diluíam” entre os integrantes do grupo.
Há relatos de solicitações para levantamento de valores de IPTU depositados em processos judiciais em razão de aluguéis, com a justificativa de que essas obrigações precisavam ser pagas. O recurso era liberado, mas o repasse não era feito.
Na investigação do MPDF, a Secretaria de Economia do DF apontou que, até novembro de 2021, os imóveis do Grupo Ok deviam R$ 336,5 milhões, a maior parte referente a IPTU. O pagamento de sete imóveis não era realizado desde 2011.
“Enquanto cidadãos honestos e pequenos comerciantes se esforçam para pagar seus impostos pontualmente, existem oportunistas que zombam dos contribuintes honestos e, através de calotes constantes, ampliam seus bens”, afirma a ação.
Estratégia para evitar o Fisco
O grupo empresarial utilizava algumas de suas firmas para diversas negociações, chamando a atenção de credores, incluindo o Fisco distrital. A estratégia, de acordo com o MPDF, era manter movimentações baixas nas contas das principais empresas e nas contas pessoais de Luiz Estevão.
Enquanto isso, quantias expressivas circulavam por outros CNPJs menos visíveis a terceiros e registradas em nomes de pessoas em quem ele confiava.
A análise do sigilo bancário da Grupo Ok Construções e Incorporações LTDA revelou que, entre 2013 e 2019, a empresa movimentou R$ 16,2 mil em crédito e R$ 11,6 mil em débito. Das 27 contas bancárias, apenas três tiveram movimentações superiores a R$ 1 mil.
De maio de 2014 a dezembro de 2019, as nove contas pessoais de Luiz Estevão movimentaram R$ 262 em crédito e R$ 874 em débito.
“Os dados bancários indicam que o grupo realizava várias transferências de valores para ocultar ou disfarçar a origem ilícita e a identidade dos beneficiários responsáveis”, observa o ministério.
Os investigados, incluindo Luiz Estevão, Eduardo e Vânia, são defendidos pelo advogado Marcelo Bessa, que atua para o empresário desde 2002, afirmando que Luiz Estevão e seus filhos “não têm sócios ou colaboradores em nenhuma de suas empresas”.
“As alegações de formação de quadrilha, estelionato e lavagem de dinheiro foram consideradas infundadas e foram rejeitadas pelo STJ. O assunto já foi julgado. Por falta de fundamentos, a ação civil pública deve ter o mesmo desfecho da ação penal”, concluiu.
Fonte: Estadão
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